Como o governo brasileiro perdeu a disputa estratégica que levou os EUA a incluírem PCC e CV na lista de terrorismo

 

A decisão do Departamento de Estado norte-americano de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como entidades terroristas internacionais representou um severo revés para a diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desdobramento é apontado nos bastidores como o momento de maior fricção na relação bilateral com a administração de Donald Trump desde a crise gerada pela imposição do "tarifaço" comercial no ano anterior. A medida coroa uma disputa política e de narrativa que se estendeu por mais de um ano, resultando em uma vitória estratégica para o grupo político de oposição comandado pelo senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro.

Historicamente, o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores manifestavam forte oposição a esse enquadramento jurídico. Os principais argumentos da diplomacia brasileira sustentavam que classificar organizações criminosas como células terroristas fere a própria legislação nacional — que separa claramente as duas naturezas de delitos — e cria um precedente perigoso para a soberania do país, abrindo margem legal para eventuais intervenções ou operações militares unilaterais de Washington sob o pretexto de segurança hemisférica. Por outro lado, a ala bolsonarista explorou o posicionamento do governo federal ao longo dos últimos meses, argumentando publicamente que a resistência em chancelar a classificação demonstrava uma suposta leniência da gestão petista com as facções. O anúncio oficial acabou sendo formalizado apenas um dia após o encerramento de uma agenda de Flávio Bolsonaro em Washington, onde o parlamentar reuniu-se com o presidente Donald Trump, o vice J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, para chancelar o pedido.

Apesar de o governo Lula monitorar o tema com constante desconfiança devido à conhecida imprevisibilidade atribuída a Trump, a confirmação da medida surpreendeu o corpo diplomático que gerenciava as conversas bilaterais. Antes mesmo da viagem da comitiva de oposição aos EUA, interlocutores do governo brasileiro já sinalizavam, sob reserva, que interpretariam um aceno dessa magnitude por parte de Washington como uma interferência externa indireta no processo eleitoral do país, uma vez que diversos setores da administração americana demonstram alinhamento com a candidatura da oposição em detrimento do atual mandatário brasileiro.

Para conter potenciais desgastes junto à opinião pública interna às vésperas do período eleitoral, a estratégia do governo federal prevê uma modulação cuidadosa em sua manifestação oficial. Estão programadas reuniões de emergência envolvendo o Ministério das Relações Exteriores, a Presidência e representantes da pasta da Fazenda para alinhar o tom da resposta. A tendência é que Brasília evite confrontos diretos e foque na exaltação de operações nacionais recentes contra o crime organizado, reforçando que o país permanece aberto a cooperações técnicas internacionais. Entre as maiores preocupações de ordem prática mapeadas pela equipe econômica e jurídica estão as possíveis sanções financeiras indiretas; há o temor de que bancos ou corporações brasileiras sofram penalidades severas no mercado externo caso cruzem com fluxos de capital vinculados involuntariamente às facções agora rotuladas como terroristas.